Resposta curta
PDRN (polidesoxirribonucleotídeo) é uma mistura de fragmentos de DNA purificados, extraídos principalmente do esperma de salmão e de truta. Começou como medicamento injetável para cicatrização de feridas na Itália, e é aí que está a melhor evidência. Em estética, os estudos são poucos, pequenos e de qualidade limitada, e a maioria usa PN, um parente do PDRN. Para sérums e cremes, a evidência ainda é muito fraca.
O que a ciência diz, por uso
- Feridas (pé diabético), injetávelBoa
Ensaio duplo-cego com 216 pacientes: cicatrização completa em 8 semanas em 37% com PDRN contra 19% com placebo. Mas não é estética.
- Rejuvenescimento, injetávelLimitada
Poucos ensaios pequenos, quase todos com PN (polinucleotídeos), não com PDRN. Qualidade baixa a moderada.
- Sérum ou cremeMuito fraca
Um único ensaio randomizado e duplo-cego com creme de PDRN de salmão no rosto: 31 mulheres, 28 dias, autores ligados à indústria.
- CabeloMuito fraca
Dois estudos pequenos de PDRN injetado e alguns de PN, nenhum com placebo. Nada sobre shampoos ou tônicos.
De onde vem o PDRN
O PDRN é DNA de peixe purificado: os fragmentos vêm sobretudo do esperma de truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) ou de salmão-keta (Oncorhynchus keta). O processo retira as proteínas e deixa mais de 95% de DNA.
Na Itália ele é usado há décadas como medicamento (Placentex), em injeções, cremes e colírios, para lesões e feridas. Depois passou a ser usado em clínicas de estética, sobretudo no leste da Ásia, e de lá chegou aos cosméticos que hoje são vendidos no Brasil.
Atenção à confusão de nomes: PDRN e PN (polinucleotídeos) são da mesma família e diferem no tamanho dos fragmentos. Muitos estudos estéticos conhecidos usam PN (como o Rejuran), não PDRN. Os resultados de um não valem automaticamente para o outro.
Como ele agiria
A literatura descreve dois mecanismos:
- Receptor de adenosina A2A: o PDRN ativaria esse receptor, o que reduziria sinais de inflamação e estimularia a formação de vasos e a maturação de fibroblastos.
- Via de salvamento: os fragmentos forneceriam “peças” (nucleotídeos) que células danificadas reaproveitam para produzir DNA.
Esses mecanismos vêm sobretudo de estudos de laboratório e de cicatrização de feridas, não de cosméticos.
Sérum de PDRN funciona?
É a pergunta que mais importa para quem compra, e a resposta honesta é: ainda não se sabe.
- Para creme com PDRN de salmão na pele intacta do rosto, encontramos um ensaio randomizado e duplo-cego: 31 mulheres usaram um creme para a área dos olhos com PDRN num lado do rosto e retinol 0,1% no outro, por 28 dias. O lado com PDRN melhorou mais nas rugas ao redor dos olhos. Mas é um estudo pequeno, curto e feito por autores ligados a empresas de cosméticos, e o retinol tem décadas de estudos a seu favor.
- Os fragmentos de DNA são moléculas enormes para a pele (milhares de vezes maiores que a maioria dos ativos cosméticos). Não há prova sólida de que atravessem a pele intacta em quantidade relevante.
- Verifique se o produto informa a concentração de PDRN: sem esse dado, é difícil saber quanto ele contém. E observe os outros ativos da fórmula (niacinamida, peptídeos, ácido hialurônico): eles podem explicar boa parte do resultado.
Em resumo: um sérum de PDRN pode ser um bom hidratante, mas não espere dele o que se lê sobre as injeções.
É seguro?
- Nos ensaios clínicos com injeções, os efeitos colaterais foram sobretudo leves e locais: vermelhidão, inchaço e pequenos hematomas. Reações de hipersensibilidade são possíveis.
- Alergia a peixe: não há casos publicados de reação ao PDRN, mas o risco nunca foi medido. Referências clínicas desaconselham injeções em quem tem alergia a peixe ou frutos do mar.
- Gravidez e amamentação: não há dados. Fale com o seu médico antes de qualquer tratamento ou produto novo.
O que diz a regulação no Brasil
Segundo o parecer 2936/2025 do Conselho Regional de Medicina do Paraná, todos os produtos com PDRN regularizados na ANVISA (22 na consulta de agosto de 2024) eram cosméticos de uso tópico, e injetá-los não é permitido. Segundo o mesmo parecer, a Sociedade Brasileira de Dermatologia já tinha alertado, em 2023, que cosméticos não devem ser injetados.
Na prática: se alguém oferecer “injeção de PDRN”, desconfie. Confira o registro do produto na ANVISA e procure um dermatologista.
Perguntas frequentes
PDRN é esperma de salmão?
É feito a partir dele. O PDRN é uma mistura de fragmentos de DNA purificados, extraídos principalmente do esperma de truta arco-íris ou de salmão. A purificação remove as proteínas; o que fica é DNA.
Sérum de PDRN funciona igual ao injetável?
Não há evidência disso. Para cremes com PDRN de salmão na pele intacta do rosto, encontramos um único ensaio randomizado e duplo-cego, pequeno (31 mulheres, 28 dias). E não está claro quanto desse DNA atravessa a pele.
PDRN injetável é liberado pela ANVISA?
Segundo o parecer 2936/2025 do CRM-PR, todos os produtos com PDRN regularizados na ANVISA até a consulta de agosto de 2024 eram cosméticos de uso tópico, e injetá-los não é permitido. Registros podem mudar: confira na ANVISA e fale com um dermatologista.
Quem tem alergia a peixe pode usar PDRN?
O risco teórico é baixo, porque a alergia a peixe é causada por proteínas e o PDRN purificado é DNA, mas ele nunca foi medido. Referências clínicas desaconselham injeções em quem tem alergia a peixe ou frutos do mar. Antes de usar um cosmético, fale com um dermatologista.
Existe PDRN vegano?
Existem produtos com DNA de plantas, algas ou bactérias vendidos como 'PDRN vegetal'. É outra substância: os estudos feitos com PDRN de salmão não valem para eles.
Fontes
- Squadrito F et al. The effect of PDRN, an adenosine receptor A2A agonist, on the healing of chronic diabetic foot ulcers. J Clin Endocrinol Metab, 2014
- Galeano M et al. Polydeoxyribonucleotide: a promising biological platform to accelerate impaired skin wound healing. Pharmaceuticals, 2021
- Lampridou S et al. The effectiveness of polynucleotides in esthetic medicine: a systematic review. J Cosmet Dermatol, 2025
- Alhussain AM et al. Polynucleotides and polydeoxyribonucleotides for skin rejuvenation, scar prevention and wound healing: systematic review of RCTs. Cureus, 2026
- Ye R et al. Topical medium-length PDRN enhances dermal extracellular matrix repair in photodamaged skin. PLoS One, 2026
- Marques C et al. From PDRNs to PNs: bridging the gap between scientific definitions. Biomolecules, 2025
- Parecer CRM-PR n.º 2936/2025 sobre o uso de PDRN
- EyeWiki (American Academy of Ophthalmology). Periorbital polynucleotide injections